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Literacia Digital

Impactos da Internet nas famílias

A tecnologia aproxima quem está longe e distancia quem está perto.

Autor desconhecido.

Quero começar este post com uma convicção: A Internet é uma excelente ferramenta. Como já referi, talvez uma das maiores e melhores invenções, que contribui para um crescimento do conhecimento, da interação e da comunicação. O problema não está na Internet, está nas pessoas e, tal como em outras tecnologias, a forma como é utilizada marca a diferença.

Uma questão de velocidade!

A grande diferença da Internet para outras tecnologias está relacionada com a velocidade da transformação entre a inexistência e a massificação. Apesar de a Internet ter dado os primeiros passos na década de 70 do século passado, no meu ponto de vista, o momento da viragem coincide com o aparecimento dos Sistemas Operativos gráficos, multitarefa e multimédia. Os meados dos anos 90 marcam a explosão da Internet, ainda muito longe do que é atualmente.

Significa que o crescimento exponencial se deu numa velocidade impensável, em menos de 25 anos temos uma tecnologia ao alcance de uma enormíssima percentagem da população (em especial nos ditos países de desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento).

Paralelamente aos equipamentos necessários para a sua utilização, provavelmente não se conhece nenhuma outra tecnologia que tenha tido este crescimento tão rápido em alcance (mais de 55% da população mundial), é algo impressionante. Segundo o site mundial de estatísticas sobre a utilização da Internet (https://www.internetworldstats.com), o crescimento do número de utilizadores foi quase de 1100% entre 2000 e 2018.

E poderia dizer que não imaginamos como será daqui a 25 anos. No entanto, tendo a consciência de que com a Internet a rapidez da criação de novos conhecimentos também cresceu em larga escala, prefiro dizer que não sabemos como irá ser daqui a 5 ou 10 anos.

Tecnologias: O terror das famílias e dos professores?

Como é natural neste tipo de mudanças rápidas, os impactos são sentidos na mesma proporção. E a adaptação para a grande parte dos pais, avós e professores (que viveram grande parte das suas vidas num contexto totalmente diferente, pode ser muito dolorosa e difícil.

Entender as rotinas, os hábitos, as crenças e os valores destas crianças e jovens é um grande desafio!!! O choque intergeracional é muito intenso, podendo gerar confusão e, acima de tudo, conflito.

A maneira como os nativos digitais lidam com a tecnologia é totalmente distinta de quem não o é. Para eles a vida sem tecnologias nunca existiu, é algo que não faz sentido. Mas isso não os transforma em inadaptados, inúteis ou fúteis, apenas são diferentes e continuam a ser, na sua essência, seres humanos totalmente normais.

Não gosto de ter memória curta, porque apesar de pertencer à famosa Geração Rasca, sem futuro, consigo perceber agora que uma boa parte dessa geração está a deixar marcas muito positivas a vários níveis da sociedade portuguesa.

Portanto, não posso, de forma alguma, achar que estes jovens nativos digitais estão perdidos porque não gostam da escola, porque passam horas nos equipamentos tecnológicos, ou só porque sim. O nosso papel (pais, professores e todos os educadores) é tentar entendê-los para poder ajudá-los a serem melhores utilizadores da Internet e cidadãos íntegros, consistentes, trabalhadores, corajosos…, o futuro do nosso país (e de outros). Todos lograrão atingir tais objetivos? Claro que não! Mas alguma vez assim foi (com ou sem tecnologia)?

O que mudou nas famílias com as TIC, e principalmente com a Internet?

Em qualquer mudança ou transformação existem aspetos positivos e negativos, perdas e ganhos. É assim sempre!

No que toca às famílias e aos crescimentos das crianças e jovens, os últimos 20 anos trouxeram grandes alterações ao nível das famílias. Muitas foram as mudanças da estrutura familiar e da sua configuração, contrastando com a noção tradicional de família. Face a essas mudanças socioculturais, a forma como as crianças crescem mudou bastante e, com isso, a transmissão de valores também mudou.

As Tecnologias aparecem como mais um fator para acrescentar mais complexidade às famílias atuais. Se refletirmos com total sinceridade sobre a nossa (Pais/Mães) utilização das tecnologias no seio da família, certamente chegaremos a alguns situações em que não agimos da melhor forma, principalmente tendo a responsabilidade de sermos modelos para os nossos filhos.

Eu sei que há sempre alguns que pensarão imediatamente “Ahh.. comigo não isso não acontece”. Pois comigo acontece algumas vezes, nem sempre estou totalmente consciente da responsabilidade de dar o exemplo. Mas basta ir a um restaurante para vermos famílias a desfrutar de uma refeição com um ecrã por perto, será apenas uma exceção (ou várias)? Ou será que em casa também será assim?

As regras na família refletem-se na vida em sociedade. E é na escola que mais se sente esse impacto dessas regras (ou da ausência delas).

fonte: https://www.focuspress.org

A utilização das TIC trouxe alterações evidentes nos comportamentos em família. Basta fazermos um esforço de regresso ao passado para percebermos como tudo mudou. Rádio, Televisão, Telefone, e mesmo o Computador, são tecnologias que não provocaram tais impactos nos comportamentos. A utilização massiva da Internet, especialmente com os smartphones/iphones, obrigaram a alterações profundas. De acordo com a psicóloga Rosário Carmona e Costa, no seu livro iAgora, esta “nova” realidade :

Provoca uma alteração na rede social da família

Antes, os relacionamentos dos elementos das famílias com a comunidade de proximidade (rede social analógica) eram limitados aos familiares, vizinhos, colegas de escola e professores, amigos de familiares. Hoje em dia, essa rede social é muito mais abrangente e, muitas vezes, fora do controlo dos responsáveis pelas crianças e jovens. Mesmo por desconhecimento, num simples jogo de smartphone, tablet ou computador, estão em contacto com um número elevado de utilizadores desconhecidos. Por isso, cada membro da família estende grandemente esta rede social, com impactos naturais na dinâmica familiar.

Os limites entre a família e o exterior alteram-se

Com a ligação à rede, os momentos, atividades e brincadeiras em família passam a ter outros protagonistas: os amigos dos filhos nas aplicações que utilizam, os amigos dos pais com telefonemas, trocas de comentários e posts nas redes sociais ou em telefonemas, dos colegas de trabalho na troca de emails em qualquer dia e a qualquer hora. A lista podia crescer, mas o certo é que os momentos de família (sem tecnologia pelo meio) são cada vez mais raros.

Donna Green, “Family Love”

O núcleo familiar fica mais exposto e mais influenciado pelo exterior

Com uma ligação muito maior com o exterior, o nível do risco também aumenta, tanto para os mais jovens como para os adultos, individualmente, ou para os casais. A exposição ao exterior torna a estrutura familiar mais frágil e a perda da privacidade é evidente.

A comunicação da família altera-se

Apesar de a possibilidade de contacto imediato ser, aparentemente, uma segurança, o facto de as crianças e jovens poderem ser monitorizados (pelo equipamento e pelas publicações que fazem) fragiliza bastante essa segurança e pode transformar-se num risco. A utilização excessiva das tecnologias também está a trazer problemas ao nível da comunicação direta, cara-a-cara. Muitas vezes, sente-se alguma frustração por expetativa de que o outro deverá estar sempre disponível e contactável, quando tal nem sempre é possível.

É, portanto, muito importante compreender e aceitar que estes factos não são o fim da linha, apenas indicadores para que as famílias definam as “regras do jogo” de forma muito clara. Sem a expetativa de que vai ser como dantes, isso não será possível. Possível será observar comportamentos, definir estratégias e aplicá-las de forma consistente para que possam surgir resultados positivos e saudáveis. Devemos estar muito atentos.

Se não for agora, poderá ser no momento em que comecem a surgir sintomas evidentes de Dependência Digital em algum elemento da família. Com a “porta arrombada” talvez surja o tal “abanão” necessário para a consciencialização forçada.

A culpa nunca é das crianças ou dos jovens. Eles precisam de Pais, Educadores e Professores saudáveis, consistentes e Informados.

Curiosamente, ou por maldição, a solução pode até começar na Internet!

A família e a Escola têm de ser parceiros, nunca inimigos. Para refletir, sem julgamentos.

Imagens utilizadas no artigo (originais e adaptadas) retiradas de Pixabay e Pexels, com utilização de acordo com as licenças disponibilizadas.

Tags : Dependências DigitaisFamíliaInternet

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